Tenho usado inteligência artificial praticamente todos os dias. Quanto melhor ela fica, mais impressionado eu fico com o que conseguimos fazer em tão pouco tempo. Mas, ao mesmo tempo, uma pergunta começou a me incomodar. Não é se a inteligência artificial vai substituir advogados, médicos, contadores, engenheiros, jornalistas ou executivos. Minha dúvida é outra: o que acontece conosco quando não precisamos mais fazer justamente a parte difícil do trabalho? Recentemente, o Superior Tribunal de Justiça encontrou uma situação que, até pouco tempo atrás, pareceria roteiro de ficção científica. Havia em uma petição um comando escondido, escrito em fonte branca sobre fundo branco, destinado não ao ministro que julgaria o caso, mas a uma eventual inteligência artificial que fizesse a leitura daquele documento. A intenção era interferir na maneira como a ferramenta interpretaria os argumentos apresentados. O episódio foi considerado grave e comunicado à OAB e ao Ministério Público Federal. O mais curioso nessa história talvez nem seja alguém ter tentado conversar escondido com uma máquina. É o fato de já considerarmos perfeitamente possível que uma máquina esteja lendo aquilo que escrevemos. E está. Hoje, uma ferramenta de inteligência artificial consegue ler contratos, comparar documentos, pesquisar jurisprudência, organizar informações, transcrever reuniões, analisar planilhas, produzir textos e resumir milhares de páginas em uma velocidade que seria inimaginável poucos anos atrás. Um processo que consumiria dias de trabalho pode ser organizado em minutos. Uma reunião termina e, antes que alguém saia da sala, já existem resumo, ata e tarefas distribuídas. Isso é extraordinário. Eu uso essas ferramentas e provavelmente vou utilizá-las cada vez mais. Seria até contraditório escrever um artigo criticando uma tecnologia que aumenta de maneira tão significativa a nossa capacidade de trabalho. Minha inquietação é outra. Durante muito tempo, parte da nossa capacidade profissional foi construída justamente no esforço que agora estamos tentando eliminar. Um jovem advogado aprendia lendo um processo inteiro. Não apenas porque precisava encontrar determinada informação, mas porque, depois de algumas centenas de páginas, começava a perceber contradições, entendia a ordem dos acontecimentos, descobria que um documento aparentemente irrelevante explicava outro que apareceria duzentas páginas depois. Aos poucos, aprendia a separar argumento de prova, fato de versão, o importante do acessório. Sem perceber, estava desenvolvendo uma coisa difícil de ensinar em qualquer faculdade: critério. Durante anos, tratamos muitas dessas tarefas como a parte braçal da formação profissional. Ler, pesquisar, comparar, errar, refazer, procurar de novo. Talvez estivéssemos olhando apenas para o produto daquele esforço. Hoje começo a perceber que o trabalho não produzia apenas uma petição, um relatório ou uma análise. Produzia também o profissional que seria capaz de fazê-los sozinho alguns anos depois. Isso não acontece apenas na advocacia. O empresário que durante anos acompanhou o fluxo de caixa começa a perceber problemas antes que eles apareçam no relatório. O médico que examinou milhares de pacientes desenvolve uma percepção que não nasceu apenas dos livros. O engenheiro que acompanhou obras aprende a desconfiar de situações que uma planilha talvez considere perfeitamente normais. O produtor rural olha para o céu, para a terra ou para a lavoura e percebe alguma coisa que dificilmente conseguiria traduzir em uma fórmula. Chamamos tudo isso de experiência. Mas tenho pensado se experiência não é, em grande parte , o resultado acumulado de milhares de pequenos esforços que fomos obrigados a fazer antes que alguém inventasse um atalho. E agora os atalhos ficaram extraordinários. Talvez seja justamente por isso que o debate atual sobre inteligência artificial tenha chegado a uma dimensão muito maior. Nos últimos dias, voltou ao centro da discussão internacional a preocupação com sistemas cada vez mais capazes de realizar tarefas e apresentar comportamentos que nem sempre ocorrem exatamente como seus desenvolvedores esperavam. Ao mesmo tempo, Estados Unidos e China disputam a liderança de uma tecnologia que já deixou de ser apenas uma questão empresarial para se tornar estratégica. Surge então uma pergunta aparentemente simples: diante dos riscos, não seria melhor diminuir a velocidade? O problema é que imediatamente aparece outra: quem diminui primeiro? Uma coisa é estabelecer limites quando todos concordam em caminhar na mesma velocidade. Outra é desacelerar sem saber se o outro continuará acelerando. Criamos, portanto, um paradoxo curioso: uma das tecnologias que mais desperta dúvidas sobre até onde deveria avançar é também uma das tecnologias que nenhuma grande potência quer correr o risco de dominar por último. Guardadas as enormes proporções, talvez estejamos vivendo o mesmo dilema dentro das empresas e das nossas profissões. Muita gente percebe os riscos de depender demais da inteligência artificial, mas ninguém quer correr o risco de ficar para trás por utilizá-la de menos. E é aqui que está o ponto que mais me interessa. Nunca tivemos ferramentas tão poderosas para aumentar nossa capacidade. Mas talvez nunca tenha sido tão fácil parecer capaz sem ter percorrido o caminho que constrói capacidade. Um profissional jovem pode produzir em minutos um parecer que, na forma, se parece com o trabalho de alguém com vinte anos de profissão. Pode preparar uma excelente apresentação sobre um assunto que conheceu naquela manhã. Pode chegar a uma reunião munido de informações que recebeu trinta segundos antes. Pode escrever com enorme segurança sobre algo que nunca estudou profundamente. Estamos criando uma situação curiosa: a qualidade do trabalho que alguém consegue entregar já não revela necessariamente a profundidade do conhecimento que essa pessoa possui. Nada disso significa que a tecnologia seja ruim. Significa apenas que surgiu uma diferença que teremos cada vez mais dificuldade para identificar: a diferença entre ter acesso ao conhecimento e ter construído conhecimento. Esse talvez seja um dos grandes desafios das próximas gerações profissionais. Quem começou a trabalhar antes dessas ferramentas consegue perceber facilmente o tamanho do salto. Sabemos quanto tempo levava uma pesquisa, quanto trabalho existia para encontrar uma informação, o que significava ler um processo inteiro, montar uma planilha, revisar um contrato ou estudar um mercado praticamente do zero. Quem começar depois talvez nunca conheça esse mundo. E não há necessariamente problema nisso. Ninguém deveria continuar usando uma máquina de escrever apenas para aprender a escrever. Também não faz sentido gastar dez horas em uma tarefa que uma ferramenta pode realizar melhor em dez minutos. O progresso sempre eliminou trabalhos desnecessários. A calculadora não destruiu a matemática. A internet não acabou com o conhecimento. O GPS não acabou com as viagens. A questão é saber se, quando eliminamos o esforço, estamos eliminando apenas o trabalho desnecessário ou também alguma parte do aprendizado que acontecia durante aquele trabalho. Não por acaso, universidades e entidades profissionais em diferentes partes do mundo já começaram a discutir se, ao eliminar determinadas tarefas com inteligência artificial, estamos eliminando também etapas importantes da formação profissional. Penso nisso especialmente na advocacia. Se uma inteligência artificial consegue organizar um processo de dez mil páginas em poucos minutos, seria irracional ignorar essa capacidade. Mas eu ficaria desconfortável se alguém fosse decidir sobre a liberdade, o patrimônio ou o futuro de uma pessoa conhecendo aquelas dez mil páginas exclusivamente pelo resumo produzido por uma máquina. Não porque a máquina necessariamente esteja errada . Ela pode estar absolutamente certa. O problema é que responsabilidade não deveria ser resumida junto com o documento. Alguém ainda precisa saber de onde aquela conclusão veio, conseguir contestá-la e, principalmente, perceber quando ela não faz sentido. E talvez exista aqui um risco ainda mais sutil. O maior teste não acontecerá necessariamente enquanto a inteligência artificial estiver errando muito. Enquanto desconfiarmos dela, vamos conferir. O teste pode vir justamente quando ela acertar tantas vezes que deixarmos de sentir necessidade de verificar. Porque confiança também pode ser uma forma de terceirização. Talvez esteja aí uma diferença importante entre usar inteligência artificial e depender dela. Quem conhece profundamente aquilo que está fazendo pode usar a ferramenta para chegar mais longe, mais rápido e talvez até melhor. Quem não conhece corre o risco de simplesmente aceitar aquilo que ela entrega. E essa diferença provavelmente ficará cada vez menos visível, porque os textos serão excelentes, as apresentações serão excelentes, os relatórios serão excelentes e os argumentos serão cada vez mais convincentes. O problema começará quando a aparência de competência se tornar praticamente indistinguível da competência. Tenho dois filhos já entrando na vida adulta e confesso que penso nisso também como pai. Que tipo de formação fará sentido para uma geração que terá no bolso acesso permanente a uma inteligência capaz de explicar praticamente qualquer assunto? Talvez não seja razoável ensiná-los exatamente como aprendemos. Mas também não me parece razoável permitir que terceirizem para uma máquina justamente o esforço que deveria construir neles autonomia intelectual. Não sei onde fica essa fronteira. Acho que ninguém sabe. Estamos tentando entendê-la enquanto a tecnologia avança numa velocidade que não nos concede muito tempo para encontrar a resposta. Mas começo a desconfiar de uma coisa. Talvez a grande divisão profissional dos próximos anos não aconteça entre quem usa inteligência artificial e quem não usa. Provavelmente quase todos usaremos. A diferença poderá estar entre quem usa a inteligência artificial porque sabe o que está fazendo e quem precisa dela porque já não sabe fazer sem ela. Por algum tempo, talvez os dois entreguem trabalhos muito parecidos. Até o dia em que a máquina errar. Nesse dia, apenas um deles saberá perceber.


