Enquanto facções avançam, Forças Armadas seguem nos quartéis

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O que aconteceu em Rochedo revela mais do que a brutalidade de um duplo assassinato. Segundo a apuração do Campo Grande News , Ellen Vitória Moreira da Cruz e Vitória Gabriely Souza Cordeiro foram torturadas durante cerca de cinco horas antes de serem mortas. A execução foi transmitida ao vivo para integrantes de uma facção. Em uma cidade de pouco mais de 5 mil habitantes, criminosos agiram sob ordens, mantiveram contato com seus superiores e fizeram da violência uma demonstração de poder. É assim que as facções ocupam espaço. Elas se instalam, recrutam, movimentam dinheiro, disputam territórios e impõem punições próprias. O medo passa a governar onde o Estado deveria garantir a lei. O assassinato em Rochedo choca pela forma, mas o método já apareceu em outro município sul-mato-grossense: em Pedro Gomes, a execução de um jovem atribuída a um “tribunal do crime” também foi transmitida por videochamada a integrantes de uma facção. As forças de segurança trabalham e fazem prisões. Dois suspeitos do crime em Rochedo foram detidos, e um terceiro morreu após uma abordagem policial. O problema é que, diante de organizações capazes de ordenar mortes à distância, prender os executores depois do crime não basta. É preciso desmontar a cadeia de comando, cortar o dinheiro e impedir a chegada de armas e drogas. Enquanto as facções conseguem se reorganizar e repetir o método em outras cidades, o poder público continua correndo atrás. Mato Grosso do Sul tem um desafio que não cabe apenas nos ombros das polícias estaduais. Sua fronteira com Paraguai e Bolívia está na rota de mercados ilegais que abastecem o crime organizado. Uma operação pontual rende apreensões e manchetes. Já o controle permanente exige pessoal, inteligência, equipamentos e presença coordenada ao longo do tempo. Sem isso, a repressão alcança uma carga ou um grupo, enquanto a estrutura criminosa preserva sua capacidade de operar. É nesse ponto que o governo federal precisa ser cobrado. O país mantém uma enorme estrutura nas Forças Armadas, mas usa pouco de sua capacidade para enfrentar de maneira contínua os delitos na fronteira. A lei já permite aos militares patrulhar a faixa fronteiriça, revistar veículos e embarcações e efetuar prisões em flagrante por crimes transfronteiriços, em ação própria ou conjunta com outros órgãos. Falta transformar essa possibilidade em presença efetiva, articulada com Polícia Federal, Receita Federal e forças estaduais. Convocar as Forças Armadas para reforçar a fronteira não dispensa investigação policial nem resolve, sozinho, o domínio das facções nas cidades. Mas deixar essa estrutura nos quartéis enquanto as organizações criminosas ampliam seu alcance é uma escolha que o governo federal precisa explicar. Rochedo mostrou o preço da demora. Quando uma facção consegue transformar o assassinato de duas jovens em uma transmissão para seus integrantes, já não se discute apenas um crime bárbaro. Discute-se quanto território, dinheiro e poder essas organizações ainda poderão conquistar antes que o Estado consiga agir primeiro.

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