Às 6h da manhã, Josué Cristaldo já sente o calor no Assentamento 72, em Ladário, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. Por conta das altas temperaturas, ele conta que os agricultores começam o trabalho cedo, param por volta das 10h e só voltam à lida entre 15h e 16h. “Das 11h às 15h fica sem condições de trabalhar”, afirma. Mesmo à noite, diz, continua quente. A jornada termina entre 18h e 19h porque, mais tarde, a presença de animais torna o trabalho perigoso. A temperatura e a sensação térmica da comunidade têm sido medidas pela estação meteorológica do Assentamento 72, instalada em 17 de setembro pela Ecoa, no norte da Paisagem Modelo Pantanal, entre Corumbá e Ladário, na divisa com a APA (Área de Proteção Ambiental) Baía Negra. Nesta segunda-feira (28), os equipamentos marcavam 43 °C, às 12h14, e a sensação de 50 °C na leitura das 13h11. No início da tarde de domingo (27), a estação instalada pela Ecoa no assentamento registrou 43 °C. Com umidade do ar em 35% e vento de 3 km/h, o equipamento calculou sensação térmica de 51 °C. Na área urbana de Corumbá, a temperatura máxima de domingo chegou a 41,9 °C, com sensação térmica de 48 °C. Segundo o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), Mato Grosso do Sul está sob alerta vermelho de onda de calor desde sábado (26), com previsão de término nesta quarta-feira (30). Esse tipo de aviso considera temperaturas máximas pelo menos 5 °C acima da média histórica por cinco dias ou mais. A Ecoa pretende usar os dados locais de vento e temperatura para desenvolver um sistema on-line de alerta de incêndios florestais. Outra estação está prevista para outubro no Assentamento São Gabriel, ao sul da mesma área. As medições também ajudam a acompanhar o efeito do calor sobre os moradores, afirma André Nunes, diretor de programas e projetos da Ecoa. A gente consegue monitorar também o quanto o território está ficando quente, a ponto de influenciar a vida das pessoas, de tornar o ambiente insustentável para viver e para produzir.” Segundo Nunes, a mudança descrita por Josué já aparece em outras comunidades, onde moradores antecipam o início do trabalho ou passam a trabalhar à noite para evitar a tarde. Nem todos, porém, têm as mesmas condições de adaptação. Outras comunidades – Nathalia Ziolkowski, diretora-presidenta da Ecoa, teme pelos efeitos do calor sobre moradoras da APA Baía Negra que conheceu em um encontro realizado em setembro, em Corumbá. Muitas eram idosas e tinham problemas de saúde, relata. O acesso limitado à água potável, as condições das casas e a vulnerabilidade econômica agravam a preocupação. Além do calor, no distrito de Porto Esperança e na comunidade Antônio Maria Coelho, moradores relatam que a poeira de caminhões de minério entra nas casas e que a água entregue por caminhões-pipa é de qualidade ruim, caso que já foi levado ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul. Alerta – A Ecoa pede alertas antecipados, água potável, visitas de equipes de saúde às pessoas mais vulneráveis e a inclusão das comunidades nos planos de contingência climática. A Ecoa lembra que o Ministério da Saúde faz algumas recomendações: beber água mesmo sem sede, usar roupas leves, evitar esforço nas horas mais quentes e procurar locais frescos. Fraqueza, tontura, náusea e dor de cabeça estão entre os sinais de alerta. O Painel El Niño 2026–2027, elaborado por órgãos federais, prevê a persistência do fenômeno até pelo menos o início de 2027, com maior risco de calor e incêndios. Em julho, classificou a situação hidrológica da bacia do Rio Paraguai como a mais crítica do país. Uma frente fria deve reduzir as temperaturas em Mato Grosso do Sul a partir de quarta-feira (30).

