“Não vazou informação nenhuma. Policial nenhum avisou ele. Foi pura coincidência ter saído cedo”. A declaração foi dada pelo advogado Amilton Ferreira de Almeida em frente à Corregedoria da Polícia Civil, no fim da tarde de quinta-feira (24), ao explicar por que seu cliente, o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, havia deixado a casa dele pouco antes da chegada dos agentes do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) naquela manhã. Cinco dias depois, nesta terça-feira (29), Amilton foi preso temporariamente por suspeita de envolvimento no vazamento de informações sobre a Operação Infiltrados. Hoffman era alvo da força-tarefa, deflagrada na quinta-feira passada para investigar esquema de desvio de drogas apreendidas por agentes da segurança pública sul-mato-grossense. A equipe do Gaeco chegou à residência do delegado, no Carandá Bosque, antes das 6h, mas não o encontrou. O episódio levantou a hipótese de que informações sobre a ação tivessem circulado antes do cumprimento dos mandados e, no mesmo dia, o Gaeco passou a buscar imagens de câmeras de segurança para verificar a que horas e em qual circunstância Hoffman havia saído do imóvel. Conforme a reportagem apurou no dia, durante as buscas na casa do delegado, Amilton conversou com o então cliente por chamada de vídeo. Ainda pela manhã, o advogado negou que o delegado estivesse foragido e afirmou que ele se apresentaria para o cumprimento da ordem de prisão preventiva. No fim da tarde, Hoffman foi à Corregedoria. Ali, Amilton disse que o cliente havia dormido em casa, saído cedo e ficado “muito surpreso” ao saber da operação. Segundo o defensor, o policial não entendia as acusações, pois a investigação estava sob sigilo e a defesa ainda não tinha acesso aos autos. Questionado sobre a proximidade entre a saída do delegado e a chegada dos agentes, Amilton sustentou que as imagens da residência poderiam esclarecer a sequência dos fatos. “Eles têm o DVR das câmeras, vai ver que ele saiu de casa e o jeito que ele saiu”, afirmou na ocasião. Em seguida, insistiu que Hoffman não sabia da operação: “Foi uma coincidência ele ter saído”. A investigação sobre o possível vazamento deu origem à Operação Obstructio, segunda fase da Infiltrados. Nesta terça-feira (29), o Gaeco cumpriu o mandado de prisão e dois de busca e apreensão em Campo Grande. Amilton foi preso em casa, na Vila Albuquerque, e levado à Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) do Cepol (Centro Especializado de Polícia Integrada). A ordem de prisão contra o advogado é temporária por 30 dias e ele é investigado por obstrução à Justiça. A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) acompanhou as diligências. O MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) afirma haver “evidências já materializadas” de uma comunicação sobre a ação sigilosa que teria prejudicado a investigação da organização criminosa. A advogada Damares Costa Machado, responsável agora pela defesa de Amilton, nega o vazamento. Segundo ela, o advogado havia combinado um café com Hoffman por volta das 5h da quinta-feira, horário em que os dois costumavam sair para caminhar. Depois do encontro, o delegado não voltou para casa, não foi encontrado pelo Gaeco e se apresentou à Corregedoria mais tarde. Damares afirma que Amilton desconhecia previamente a operação e que ele disponibilizou o celular para análise. Hoffman passou a ser representado pelo advogado José Roberto Rodrigues da Rosa no sábado (26), dois dias após ser preso. A primeira fase da Infiltrados cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos. A apuração começou em outubro de 2025, a partir de elementos das operações Traquetos e Blindspot. Segundo o Gaeco, agentes públicos teriam omitido parte das drogas apreendidas dos registros oficiais ou retirado entorpecentes de depósitos de delegacias para repassá-los a traficantes. Entre os investigados estão policiais civis, militares e um policial penal. Hoffman é apontado pelo Gaeco como integrante do núcleo de comando, responsável pela chamada “chancela institucional” do esquema investigado. Ele foi ouvido em audiência de custódia no sábado e permaneceu preso. Na ocasião, a defesa informou que havia recebido acesso aos autos na noite anterior e pretendia pedir a revogação da prisão do delegado.


