Foi no Exército que Daniel descobriu talento na cozinha e quis ser chef

Brasil Geral Mato Grosso do Sul Notícias Últimas notícias

Entre panelas gigantes de arroz, fardos de feijão e uma cozinha quente, Daniel Abner Fernandes Rodrigues, de 25 anos, descobriu que queria transformar o preparo de alimentos em profissão. Foi durante o serviço militar, em 2020, que o jovem encontrou a oportunidade de trabalhar na cozinha do quartel. Mesmo diante das dificuldades, percebeu que gostava daquela rotina e decidiu seguir o caminho da gastronomia. Na época, Daniel servia no Exército e pediu ao capitão para trabalhar no rancho, nome dado à cozinha militar. O interesse pela culinária já existia, mas a experiência ajudou a confirmar sua escolha. Em vez de pequenas porções, precisava preparar comida em grandes quantidades para alimentar os militares. "Para fazer arroz, era um saco para cada panela no fogão. Fazer feijão era um fardo de feijão todo dia. Carnes, era muita carne. Tinha a parte do açougue, onde eu passava a tarde inteira cortando carne", relembra. O ambiente também apresentava dificuldades. Segundo Daniel, o calor era intenso, o uniforme não era adequado para a cozinha e o piso escorregadio exigia atenção constante. Ainda assim, encontrou satisfação no trabalho e fez amizades. A ideia inicial era aproveitar a experiência para participar de um curso oferecido pelo Senac aos militares, mas descobriu que precisaria continuar no Exército para ter acesso à formação. Decidiu não permanecer, mas saiu do quartel com a certeza de que queria trabalhar com comida. O interesse pela cozinha, na verdade, tinha começado anos antes, durante a infância. Daniel lembra que o primo João Felipe, 2 anos mais velho, foi quem lhe ensinou a preparar o primeiro ovo frito. Os dois cresceram juntos, brincavam na rua, soltavam pipas e juntavam moedas para frequentar uma lan house. Em uma dessas tardes, quando chegou a hora do jantar, o primo decidiu ensiná-lo a cozinhar. "Ele pegou a panela, colocou o óleo, ligou o fogão. Eu lembro da chama azul. Colocou o ovo e foi me ensinando passo a passo. Quando vi o ovo mudando de forma, ficando branquinho, amarelinho, achei aquilo muito interessante", recorda. João Felipe morreu anos depois, e Daniel faz questão de reconhecer a importância dele em sua trajetória. "Ele plantou a semente, mesmo que não propositalmente". Antes de ingressar no Exército, Daniel cursava Geografia a distância, mas não se identificava com as aulas. Em 2019, decidiu trancar a faculdade, mesmo sem o apoio dos pais, que preferiam que ele concluísse a formação. "Eu olhava aquelas aulas online e pensava: o que estou fazendo? Estava no meu quarto, não interagia com as pessoas e fazia algo de que não gostava", relata. A mudança de profissão não aconteceu imediatamente. Daniel passou por diferentes experiências profissionais, incluindo a produção e venda de cookies, o trabalho em um cinema e uma loja de artigos esportivos. Cada atividade trouxe aprendizados. No cinema, por exemplo, aproveitou o contato diário com o público para desenvolver a comunicação e enfrentar a timidez. Já durante o período em que vendia cookies, enfrentou jornadas que começavam pela manhã e terminavam depois das 23h. "Não teve nenhum momento em que pensei em abandonar a ideia. Nenhum momento. Sempre tentava imaginar como conciliar aquela rotina, que não é fácil, com o estudo de gastronomia", afirma. O período também trouxe dificuldades emocionais e ensinou ao jovem a importância de estudar antes de empreender. Mesmo com as dificuldades, ele manteve o objetivo de se profissionalizar na cozinha. Daniel chegou a ingressar no curso de Gastronomia da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), mas decidiu interromper os estudos por insatisfação com a estrutura e os custos. Na época, pagava R$ 1.044 de mensalidade. Posteriormente, conheceu o Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), onde encontrou uma formação mais voltada à prática. Em 2024, concluiu o curso de cozinheiro, que, segundo ele, tinha a maior parte das atividades desenvolvidas na cozinha. A experiência aumentou a vontade de continuar estudando. Com a abertura de novas oportunidades de formação, Daniel ingressou no curso de Gastronomia em 2025 e passou a enxergar possibilidades profissionais que antes desconhecia. "Estudando e conhecendo a área, vi o leque de oportunidades que a gastronomia oferece. Não é só estar ali na beira do fogão, não é só na cozinha de um restaurante. É muito além disso. Você estuda pessoas, sociedade, história, descobre de onde veio determinado alimento", explica. Ele pretende aprofundar os conhecimentos sobre a culinária brasileira e italiana, conhecer a gastronomia de outros países e, no futuro, compartilhar o que aprendeu como professor. Hoje, Daniel ainda considera sua identidade profissional em construção. Apesar das inseguranças financeiras, segue os estudos com o apoio da namorada, Giovana, e acredita que o planejamento pode ajudá-lo a alcançar seus objetivos. Ao lembrar do jovem que entrou no quartel e encontrou na cozinha uma possibilidade de futuro, reconhece a importância de cada experiência. "Eu vejo que estou no caminho certo. Todos os lugares em que trabalhei me ensinaram alguma coisa importante. A gente pode aprender com qualquer pessoa", finaliza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *