Casal usa grafite para contar histórias do interior de Mato Grosso do Sul

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Os artistas Fabrício Martins da Silva e Marilena Grolle decidiram transformar muros, escadarias e outros espaços públicos em obras de arte. Casados, os dois compartilham a rotina, o ateliê e agora as viagens pelo interior do Estado, onde usam o grafite para contar histórias e valorizar a cultura de cada município. A iniciativa faz parte do projeto Ações Culturais Arte nas Ruas, desenvolvido em articulação com a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul e os municípios interessados. A proposta é levar a arte urbana para cidades do interior, com pinturas inspiradas nas tradições, no folclore, na fauna e nos símbolos que representam cada localidade. O primeiro município a receber as intervenções foi Bodoquena. Entre o fim de abril e o início de maio, o casal passou cerca de 20 dias na cidade e produziu 2 obras. Uma delas ocupa o muro de uma escola, com aproximadamente 100 metros de comprimento e 210 metros quadrados de pintura. Os artistas trabalharam sozinhos durante 7 dias para concluir o painel. A segunda intervenção transformou uma escadaria próxima ao Paço Municipal em uma cachoeira. A pintura aproveita os degraus para criar a impressão de água descendo pelo espaço. No muro da escola, os artistas incorporaram elementos da Folia de Reis, tradição presente no município, além de referências à fauna local e de uma seriema, ave escolhida como mascote do turismo de Bodoquena. Durante a execução, uma cena chamou a atenção do casal. Duas seriemas apareceram perto do muro e chegaram a caminhar diante da pintura. Os moradores também acompanharam o trabalho, fizeram perguntas, tiraram fotografias e demonstraram curiosidade sobre as imagens. A aproximação foi tanta que um deles convidou os artistas para passar um fim de semana em sua chácara. "Enquanto a gente está fazendo a arte no muro, no painel, na escadaria, os moradores locais param, veem, perguntam. Eles gostam muito porque são coisas que retratam a cidade. São artes que as pessoas reconhecem", contou Fabrício. Para ele, essa identificação também ajuda a modificar a percepção de parte da população sobre o grafite, muitas vezes confundido com a pichação. Dois estilos, uma pintura – A parceria reúne artistas com trajetórias diferentes. Marilena tem experiência no grafite e no movimento hip-hop, enquanto Fabrício vem da aquarela e começou a trabalhar com arte urbana há aproximadamente 2 anos. Essa diferença aparece no processo criativo. Ele prefere composições mais livres, enquanto ela trabalha com traços definidos e atenção aos detalhes e acabamentos. "Eu gosto de dar sugestões para as pessoas verem a arte e interpretarem. A Marilena tem uma coisa muito mais consistente na elaboração. Ela trabalha muito mais com detalhes, com uma coisa mais elaborada nos acabamentos para deixar muito mais nítido", explicou. Na criação dos murais, os dois procuram combinar essas características. Algumas pinturas começam com elementos individuais, que se encontram durante a execução, enquanto outras são planejadas inteiramente em conjunto. A convivência artística não se limita às viagens. A casa onde moram também funciona como espaço de experimentação, com paredes e áreas externas pintadas. Nos fundos, o casal mantém um ateliê que, segundo Fabrício, já acumula tantas obras e materiais que quase não há espaço disponível. Recentemente, eles também começaram a compartilhar outra atividade artística, a música. "Não enjoa porque a gente não está parado. Por mais que estejamos juntos viajando, fazendo o processo, agora também na parte da música, tocando juntos, a gente está sempre em atividade", afirmou. Segundo ele, quando surgem diferenças de opinião, os dois procuram chegar rapidamente a um consenso para continuar o trabalho. Planos para o interior – Embora a proposta tenha começado a ganhar forma há cerca de um ano, Bodoquena ainda é o único município que recebeu as pinturas por meio do projeto. Fabrício explica que a iniciativa avançou lentamente por causa das negociações necessárias entre os artistas, a Fundação de Cultura e as prefeituras. Miranda chegou a ser considerada, mas a intervenção não avançou por questões orçamentárias. Agora, o casal mantém conversas com outras administrações municipais e pretende realizar pelo menos 4 intervenções em 2027, com possibilidade de iniciar as viagens em fevereiro. Antes de cada pintura, os artistas conversam com representantes do município sobre os elementos que devem aparecer na obra, produzem esboços e apresentam a proposta para aprovação. A intenção é que cada painel tenha características próprias e faça sentido para quem vive na cidade. "A gente consegue fazer com que os moradores se sintam representados naquelas pinturas. Isso é uma das coisas mais legais que percebemos durante esse processo", concluiu Fabrício.

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