Uma carga de cocaína em atraso levou policiais envolvidos no esquema, segundo o GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), a acertarem com o traficante Lucas da Silva dos Santos, o “LK”, a instalação de um “carrapato”, dispositivo de rastreamento por GPS, no veículo que transportaria o entorpecente. A ideia era acompanhar o carregamento e definir o momento mais oportuno para uma apreensão que permitiria o desvio de parte da droga. O detalhamento consta na investigação da Operação Infiltrados. O documento descreve uma engrenagem em que informações sobre cargas de drogas circulavam antes das apreensões oficiais. Mais que isso, segundo o GAECO, a estrutura das forças de segurança era usada para beneficiar o tráfico, localizar entorpecentes, acompanhar a movimentação de traficantes e, posteriormente, desviar parte das drogas que deveriam ser retiradas do mercado ilegal. No pedido de prisões e buscas e apreensões encaminhado à Justiça, o GAECO aponta que policiais seriam responsáveis por rastrear cargas, realizar abordagens e ter acesso aos entorpecentes apreendidos, enquanto LK faria a articulação com traficantes e negociaria a destinação da droga que seria desviada. A carga atrasada era a mesma apreendida posteriormente por policiais de São Paulo, mas o monitoramento começou antes de o entorpecente chegar ao Brasil. Em negociação com o traficante Maicon Igo Barbosa Moreira, o “Gordinho”, apontado como líder da organização criminosa investigada na Operação Traquetos, ele comenta com LK que aguardava um carregamento de “branco”, termo utilizado nas conversas para se referir à cocaína. A carga, porém, estava atrasada. Em uma das mensagens, Gordinho afirma que o entorpecente estava “enrolado pra chegar do chapare ( sic )”, referência à Província de Chapare, na Bolívia, conforme interpretação do GAECO. Diante do atraso, segundo a investigação, LK e policiais civis combinaram a instalação de um “carrapato” no veículo que seria utilizado no transporte. O dispositivo permitiria acompanhar por GPS o deslocamento da carga e escolher o momento da abordagem. Isso ocorreu em maio de 2025. “Em razão do atraso na chegada da cocaína, LUCAS DA SILVA DOS SANTOS (‘LK’) e os policiais civis acertaram de instalar um ‘carrapato’ (dispositivo de rastreamento por GPS) no veículo para acompanhar a carga e definir o momento mais oportuno para a interceptação e apreensão”, registra o documento. A suspeita do GAECO é de que a intervenção policial seria verdadeira, mas apenas parte dos entorpecentes seria apresentada oficialmente. Em uma das conversas recuperadas pelos investigadores, LK explica como seria feita a divisão: “nós apreendemos metade e metade pega pra nós”. Em outro diálogo, ele afirma que, se conseguissem interceptar a droga, entregaria parte ao interlocutor e metade a outro aliado. Em outro episódio, o grupo teria monitorado uma carga relacionada aos irmãos Carlos Alberto Alves Fonseca e Paulo Sérgio Alves Duarte. A investigação relaciona a instalação de um carrapato ao policial civil Nilton Cesar Sales dos Santos, então lotado na DERF (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Roubos e Furtos), mas que anos antes atuava na Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico). O GAECO encontrou nos dados telemáticos de LK capturas de tela de um aplicativo de rastreamento em tempo real. O dispositivo eletrônico usado para acompanhar o veículo aparecia no sistema com a identificação “NILTON DERF”. Para os investigadores, o dado ganha relevância justamente porque Nilton estava lotado na unidade naquele período. O acompanhamento ocorria em tempo real. Em conversa de 1º de junho de 2025, LK demonstrava saber a localização do veículo e dizia que uma Saveiro já estava passando por Miranda. No mesmo diálogo, afirmou que acionaria dois aliados para participarem da ação, um chamado de “Professor” e outro identificado como “Nilton”, que o GAECO aponta como sendo Nilton Cesar Sales dos Santos. Lucas ainda calculou que cada policial poderia receber entre R$ 50 mil e R$ 60 mil após a operação. Sistemas oficiais – Outro ponto destacado pela investigação é o suposto uso indevido de bancos de dados públicos. Segundo o GAECO, policiais teriam utilizado ferramentas disponíveis para a atividade de segurança pública com finalidade diferente da prevista, obtendo informações sobre pessoas ligadas ao tráfico para orientar ações de interesse do grupo. Entre os sistemas citados estão o Córtex, plataforma do MJSP (Ministério da Justiça e Segurança Pública), e o Infoseg, ferramenta que integra informações de órgãos de segurança, Justiça e fiscalização. A investigação encontrou nos arquivos de LK capturas de tela do Córtex com consultas realizadas em 26 de maio de 2025 a um veículo. Uma auditoria posterior no SIGO (Sistema Integrado de Gestão Operacional) mostrou que, no mesmo período, o policial militar Alison Lemes Bezerra, o “Daga” ou “Daguinha”, e o policial penal Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos consultaram o prontuário da mesma pessoa pesquisada no Córtex. Outras imagens encontradas nos dados telemáticos de Lucas mostraram consultas ao Infoseg. Os arquivos foram compartilhados pelo WhatsApp na mesma data de áudios analisados pelos investigadores. Para o GAECO, o material reforça a suspeita de que LK contava com agentes de segurança pública capazes de acessar bancos de dados restritos e repassar as informações à organização. As consultas também eram direcionadas a Carlos Alberto Alves Fonseca e Paulo Sérgio Alves Duarte, apontados como pessoas monitoradas pelo grupo. Como não foi possível, naquele momento, auditar diretamente as consultas realizadas no Infoseg, os investigadores decidiram cruzar os dados com o SIGO para verificar se servidores públicos haviam pesquisado os dois nomes no mesmo período. Drones – A vigilância não ficava restrita ao rastreamento por GPS e às consultas em sistemas oficiais. Segundo o GAECO, o grupo também utilizava drone para observar os alvos do alto. Nos dados telemáticos de LK foram encontradas fotografias da tela de um equipamento da marca DJI, compartilhadas pelo WhatsApp em 1º de junho de 2025. As coordenadas registradas na tela do drone, -20.524824 e -54.686176, levaram os investigadores ao Bairro Portal Caiobá, em Campo Grande. As imagens mostram ainda a aproximação sobre uma residência apontada pelo GAECO como o imóvel que estava sendo vigiado durante a preparação para interceptar uma carga de drogas. O monitoramento aéreo ocorria enquanto LK orientava os comparsas em terra. Em áudio da mesma data, ele descreve possíveis trajetos do alvo pelo Caiobá e pela região do loteamento Bela Laguna. No dia seguinte, 2 de junho, uma fotografia da fachada da mesma residência observada pelo drone foi encaminhada a Lucas pelo WhatsApp. Para o GAECO, os elementos mostram que os recursos não eram usados de forma isolada. A investigação descreve uma estrutura que reunia rastreadores por GPS, consultas a sistemas restritos de segurança pública, vigilância nas ruas e monitoramento por drone para acompanhar pessoas, veículos e carregamentos antes das intervenções policiais.


